sábado, 15 de novembro de 2014

O Golpe do dia 15 de novembro de 1889

Por Antonio Siqueira - Do Rio de janeiro



Deodoro era monarquista: 
Tela de Benedito_Calixto_-_Proclamação_da_República,_1893



















Na madrugada de 15 de novembro de 1889, o marechal Deodoro da Fonseca ardia de febre em sua casinha de três quartos e sala, numa transversal do Campo de Santana, depois Praça da República. Dias antes havia recebido uma comissão de ilustres republicanos empenhados em aliciá-lo para a causa, mas opinara que a mudança do regime só deveria acontecer após a morte do Imperador. Era amigo pessoal de D. Pedro II.

Na noite anterior dois regimentos e um batalhão aquartelados em São Cristóvão tinham-se rebelado, ocupando o Campo de Santana, bem defronte ao prédio do Ministério da Guerra. Seus oficiais queriam a destituição do primeiro-ministro, Visconde de Ouro Preto, acusado de pretender dissolver o Exército, força cada vez mais influente depois da Guerra do Paraguai.

Os insurgentes, com seus canhões apontados para o ministério, onde estavam reunidos os ministros, ressentiam-se da presença de um chefe de prestígio. Alguém lembrou que quadras adiante morava Deodoro, posto em desgraça e mandado para a reserva por desavenças com Ouro Preto. Conta a lenda que a mulher do marechal recebeu os emissários com um cabo de vassoura na mão, tentando impedir que perturbassem o marido. Deodoro os recebeu e ouviu os boatos da hora: a ordem de sua prisão estava assinada, além da dissolução do Exército, que a Guarda Nacional substituiria. Irritado, com a febre aumentada, fardou-se, disposto a chefiar o motim. Estava fraco, não conseguiu montar o cavalo posto á sua disposição, embarcando numa charrete que, passando pela avenida do Mangue, seguiria para os quartéis em São Cristóvão. No meio do caminho é surpreendido por tropa armada, até com banda de música, que iria aderir aos sediciosos. Faz meia volta e dirige-se ao prédio do ministério da Guerra.

Ouro Preto e seus ministros olhavam pela janela a movimentação dos canhões rebelados, tendo o primeiro-ministro convocado o Secretário-Geral do Exercito, marechal Floriano Peixoto, comandante das forças legalistas, por sinal acantonadas na parte de trás do ministério. Apontando para os canhões, ordenou que fossem tomados a baioneta pela tropa a seu dispor. Diante das ponderações sobre dificuldades, afirmou que no Paraguai, em condições mais adversas, “as peças inimigas haviam sido conquistadas com arma branca.

Floriano, fleugmático, sentenciou o que aconteceria minutos depois: “É, mas lá nós lutávamos contra paraguaios…

Deodoro chegou aos portões do ministério, exigiu que fossem abertos e já montado num cavalo baio, irrompeu pelo páteo e as escadarias, cercado pela tropa rebelada que gritava “Viva Deodoro! Viva Deodoro!”

O movimento, no entender do velho militar, visava a deposição de Ouro Preto. No gesto característico de seu comando no Paraguai, ele tirou várias vezes o boné, saudando os companheiros, e gritando “Viva o Imperador! Viva o Imperador!

Subiram ao andar onde estava reunido o ministério, misturado com os republicanos históricos, alertados para a oportunidade. Ouro Preto não se levanta e escuta as queixas de Deodoro sobre a perseguição ao Exército. A febre aumentara e o marechal repetia diversas vezes o argumento de que “nós que nos sacrificamos nos pântanos do Paraguai não merecermos isso”.

Arrogante, pretensioso e elitista, Ouro Preto o interrompe para dizer: “olha aqui, marechal, maior sacrifício do que fizeram nos pântanos do Paraguai estou fazendo eu aqui ao ouvir as baboseiras de Vossa Excelência!

Passaram-se poucos segundos antes que Deodoro repetisse tradicional frase castrense: “esteja todo mundo preso!”

De Benjamim Constant a Quintino Bocauiúva, Aristides Lobo, Rui Barbosa e outros republicanos que caberiam numa kombi, se kombis já existissem, veio a tentação para que Deodoro aproveitasse o episódio e proclamasse a República. O militar hesitou mas cedeu ao argumento de Benjamin Constant: “e mais, marechal, a República terá que ser governada por um ditador, e o ditador é o senhor!”

Dizem que a febre passou e os olhos de Deodoro se arregalaram. A tropa vitoriosa empreendeu um desfile pela rua Larga e adjacências. Deodoro voltou para casa, caiu em sono profundo e os republicanos trataram de redigir os primeiros decretos da recém nascida República. À tarde, foram à casa do marechal, que pretendeu dar o dito pelo não dito, ou o proclamado pelo não proclamado, mas cedeu aos apelos da multidão organizada por José do Patrocínio na porta de sua casa.

A República estava nascendo. O Imperador, que naquela manhã havia descido de Petrópolis, de trem, permaneceu na Quinta da Boa Vista, onde recebeu ordens para exilar-se, com a família. Militares mais exaltados haviam proposto que fossem todos fuzilados, mas Deodoro reagiu com vigor, ainda mandando que fosse votada uma verba para família real sustentar-se lá fora. D. Pedro II declinou…




4 comentários:

  1. Pois, é! No Brasil varonil, as coisas acontecem desse jeito, ou seja à Bangu, para usar um ditado antigo, tão quanto as mazelas políticas.
    Osvaldir

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  2. Historicamente correto!

    roberto / lamas

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  3. O Brasil nasceu assim; um engano após o outro, rs.

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  4. A Proclamação da República de 1889, foi fruto da “Lei Áurea-Libertação dos Escravos sem indenização aos Proprietários, nem com Títulos do Tesouro com maturidade 50 Anos, e tentativas de Humilhar o Exército Brasileiro, que com a Guerra do Paraguai ( 1865-1870 ), que sob o brilhante comando do Gen. Duque de Caxias, cresceu muito e “sangrou muito”, naquela duríssima Campanha, no final Vitoriosa.
    O Império via Ministério Visconde de OURO PRETO queria rapidamente voltar ao esquema antigo de Defesa Nacional, baseada numa forte Marinha de Guerra, Marinha Mercante e a Milícia da GUARDA NACIONAL, ficando só um Núcleo-Base do Exército, muito pequeno. O EXÉRCITO humilhado por OURO PRETO, lá pelas tantas REAGIU, como dali para frente tem mostrado nossa História, que REAGE, e derrubou pela Força das Armas o Ministério OURO PRETO e ato contínuo, Proclamou a República. Foi uma pena, porque o Exército deveria com Justiça ter derrubado o Ministério OURO PRETO, mudado a Constituição, feito a REFORMA para transformar nossa Monarquia nos moldes da Inglesa onde a Rainha “Reina mas não Governa” e obtido seus Objetivos, mantendo a Monarquia.
    Para o Brasil, ainda por muito tempo, uma Monarquia Constitucional como a Inglesa, que aproveita o máximo da Nobreza/Clero ( Câmara dos Lordes ), e o máximo das Camadas Populares ( Câmara dos Comuns), é a melhor solução.

    Celso Lins

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